Tropa de Elite
Brasil (2007)
Direção: José Padilha
Elenco: Wagner Moura, André Junqueira, André Ramiro, Maria
Ribeiro, Fernanda Machado e Marcelo Valle
O mais importante filme brasileiro de todos os tempos,
“Tropa de Elite” escancara trajetória e números tão absolutos que desmonta
qualquer tentativa de quem precisa e gostaria de ver rebaixado um trabalho irretocável como o
perpetrado pelo diretor José Padilha (de “Ônibus 174”).
“Tropa de Elite” inverte todos os signos e como num
tabuleiro de xadrez aplica um xeque-mate no discurso pronto de que “todo mundo
é corrupto”, “a oportunidade faz o ladrão” e “está chorando porque também
queria participar da bufunfa” e outras barbaridades típicas de quem mede com
régua própria coisas e pessoas. Como diria um velho filósofo: “Você vai
preferir acreditar nos seus próprios olhos ou no que a grande imprensa está lhe
dizendo ?” Esta cegueira moral gerou esta distorção toda e fez de “Tropa” o
filme mais incompreendido e manipulado desde “Metropolis” de Fritz Lang.
O filme, ao expor as entranhas do BOPE, modifica os papéis
de mocinho e bandido, e o espectador já nos primeiros minutos acaba fisgado
pela narração alucinante dos detalhes do cotidiano do Capitão Nascimento
(Wagner Moura em atuação que reinventou sua carreira).
É provável que José Padilha nem soubesse no que estava se
metendo ao radiografar o interior do competente, e muitas vezes violento,
Batalhão de Operações Especiais. O estrondo de indignação, aplausos, vaias,
comoção generalizada com que o filme foi recebido entre público e
intelectualidade demonstra que o trabalho,parido pelo jovem diretor, foi muito
além das fronteiras da sétima arte.
Fatos e lendas
cercam de todas as formas esse objeto único chamado “Tropa de Elite”. Durante
as filmagens as armas cenográficas foram roubadas de dentro de uma van. Pessoal
da técnica e do apoio abandonaram as filmagens temerosos que ação tivesse
partido de um Bope contrariado pelo despimento total de suas operações.
O prejuízo do roubo e a demora fez com que o filme
atrasasse. Foram contratados então, especialistas norte-americanos tarimbados
em vídeos de ação para a agilizarem as gravações. O filme que havia sido orçado
em R$ 4,9 milhões salta para R$ 10,5 milhões.
Com o filme quase sendo finalizado a grande imprensa
“descobre” a obra e logo já parte para a comparação com “Cidade de Deus”. O
fato foi reforçado porque o roteirista Bráulio Mantovani e o montador Daniel
Rezende haviam trabalhado na superestimada obra de Fernando Meirelles.
O filme espetacularmente começa a ser vendido por camelôs do
Rio e ganha as ruas e noticiário. Chega rapidinho na 25 de Março em São Paulo.
Naqueles meses me recordo de ouvir um camelô explicar detalhes do filme e
convencer um desconfiado comprador a “morrer” com os R$ 5. Na tentativa de
frear a venda, diretor e produtora dizem que a cópia não estava finalizada.
Tamanho barulho desperta a atenção do Ministério da Justiça
que diz que atacará “a demanda”. Burocratas da Agência do Cinema lamentam o
evidente prejuízo. A TV começa a falar do caso e cópias piratas chegam ao Norte
e Nordeste. A esta altura “Tropa de Elite” já havia virado coqueluche nacional
e o filme “que não existia”mais visto da
história do país. Campanhas pentelhas (PTelhas ?) dizendo que pirataria é crime
começam a varrer as salas de cinema e
televisão aberta. Nada disso acaba dando resultado, o filme a estas alturas era
assunto até internacional. Detalhe:continuava inédito nos cinemas.
Por conta do vazamento,a Paramount decide antecipar a
distribuição do longa. O impacto da pirataria começa a ser incógnita na
bilheteria de “Tropa”. Rodrigo Saturnino Braga , da distribuidora Columbia,
relembra o fato do presidente Lula ter assistido a cópia pirata de “2 Filhos de
Francisco” e acha que não há problema algum na crescente distribuição ilegal do
filme.
Em outubro de 2007, José Padilha finaliza o filme e garante
exibição imediatamente. A estréia não ocorre e o Lao, da 25 de Março, troca de
carro importado pela terceira vez no ano... Policiais do Bope começam a relatar
casos de porteiros, garçons e populares que começam a aborda-los pedindo
autógrafos e sinalizando com o polegar para cima em atitude, inédita para
policiais, simpática.
O site do Bope fica congestionado e uma multidão acampa em
frente ao Batalhão perguntando como proceder para se tornar um membro da
equipe.
Uma equipe da TV japonesa desembarca no Brasil para filmar
documentário sobre o filme mais falado e assistido e que ainda não foi lançado.
Voltando de uma “peregrinação” ao centro de São Paulo escuto conversa surreal
de motorista e passageiro de ônibus dizendo que “Tropa de Elite” é uma espécie
de “Rambo 2”.
Crianças começam a cantar o hino da tropa.
Cópias piratas surgem em quartéis da PM, delegacia e
Exército. O filme ganha status de “bíblia” dos homens da lei.tropa de elitre
ENORME
A imprensa governista decide ressaltar o caráter retrógrado
do filme o que faz com que oficiais da PM capitulem e entrem na Justiça contra
a exibição da fita. O jornal Folha de S.Paulo tenta falar com Padilha sobre a
possível proibição. O diretor amedrontado com tanto barulho se recusa a dar
entrevistas. O governador do RJ Sérgio Cabral assiste a cópia pirata e “aprova”
o filme, o mesmo ocorre com o ministro da Justiça Tarso Genro dizendo que o
filme é “didático”. Um cheiro de manipulação esquerdista a essa altura começa a
ser percebido. Logo, o diretor do filme começa uma inacreditável história de
que o filme foi mal compreendido e que ele “não louva “ a Polícia. Assustado
com tanto patrulhamento vai até o Programa Roda Viva e quase pede desculpas por
ter feito o filme que fez...
O governador Sérgio Cabral volta atrás e diz que “o filme
mostra a que ponto nós chegamos e desmente ser fã da obra. Os ambulantes
cariocas decidem deixar o fantoche lulista para lá e inventam mais duas
continuações. Documentários sobre o BOPE exibido no Fantástico e na TV acabam
se transformando em “Tropa de Elite 2” e “Tropa de Elite 3”. Camelôs descobrem
o documentário “Notícas de Uma Guerra Particular”(1999) de Kátia Lund e lançam
a parte 4 do “Tropa”.
Wagner Moura, o Capitão Nascimento, começa a ser requisitado
para filmes, novelas e comerciais. Vai ao “Faustão” e dobra a audiência da
tarde.
Finalmente o filme entra em cartaz nos cinemas. De maneira
quase secreta,e sem um pingo de publicidade,o cine Maxi de Jundiaí (SP)
consegue a proeza de ser o ÚNICO cinema a exibir então o filme. O inevitável
boicote fica escancarado. Notas na Folha e Estadão começam a inventar sobre um
possível fiasco do filme. A revista Veja decide contratacar e dá grande
destaque ao filme de Padilha. Na capa um durão Wagner Moura fita o leitor com
arma na mão.
Após a revista, o filme “estréia direito” e em pouco mais de
10 dias já é o filme mais visto e comentado da história do cinema brasileiro. O
Instituto de Pesquisas Vox Populi realiza então pesquisa e mostra um resultado
arrebatador. Na opinião de 72% dos entrevistados, os criminosos que aparecem no
filme são tratados da forma que merecem e 80% deles acreditam que a polícia é
apresentada de forma correta. Resumindo:aprovam que “desçam lhe o relho”. A
frase de Wagner Moura “Playboy que fuma maconha é responsável pela morte de
colegas do Bope na defesa da lei” ganha aplausos e críticas. Os jornalistas
“pró-hemp” começam a boicotar o filme e tascam-lhe a pecha de “reacionário”.
Cadernos de fim-de-semana começam a tentar traçar paralelo
forçado e idiota comparando o filme a “Lúcio Flávio”, “O Bandido da Luz
Vermelha” e “Cidade de Deus” enxergando aí uma linha evolutiva. Jogada
desesperada a fim de diminuir o valor do filme com a velha ladainha “ah mas tem
outros também...”. Se há algum mérito no filme “Tropa de Elite” é exatamente o
oposto do que bradam os jornalões. Com tudo isso, a crítica especializada
procura transformar bandidos perigosos em “Zés Galinhas”. A revista Trip coloca
nas bancas mais uma edição louvando traficantes
mostrando o drops dulcora do mundo cão.
O humorista Tom Cavalcante assiste o filme e monta a paródia
“Bofe de Elite”, o quadro, retratando policiais gays faz tanto sucesso que
dobra a audiência do programa “Show do Tom” e obriga os camelôs a lançarem mais
um produto. Agora, além dos quatro DVDs piratas um quinto de bônus (o do Tom)
entrava no pacote. “Três é dez e cinco é R$ 15 chefia”, bradava um excitado
vendedor ambulante satisfeito com as vendas incessantes.
O filme sai em DVD oficial a R$ 29,90 e o site da Submarino
esgota todos os itens num único dia. O longa é selecionado para o Festival de
Berlim.
Apresentado na cidade alemã, o filme é prejudicado pelo
legendamento capenga, não provoca reações da platéia mas lota a entrevista
coletiva de Padilha após a exibição. Tablóides europeus comentam o sucesso do
filme visto por 11,5 milhões de brasileiros e toda a polêmica que o cerca. A
Ilustrada numa das maiores burradas de sua história publica que o filme foi um
fiasco e que é certo que não ganhará um prêmio sequer. Contrariando a opinião
do jornal paulistano a revista inglesa “Screen” e o jornal alemão “Berliner
Zeitung” dão nota máxima ao filme e qualificam-no como “obra-prima”.
Sai o resultado.“Tropa de Elite” é o principal vencedor do
Festival de Cinema de Berlim. Na mesma noite Arnaldo Jabor faz um buxixo de
pouco caso enquanto Rubens Ewald Filho prefere ressaltar a força dos
distribuidores , os irmãos Weistein.
Após a divulgação dos premiados, José Padilha é ovacionado
como se fosse um Brad Pitt ou um Clint Eastwood e é aplaudido em pé por vários
minutos por jornalistas, diretores e organização do festival.
Os jornais brasileiros publicam o resultado e dão o destaque
costumeiro, mas estranhamente,em se tratando de segundos cadernos,um grande
silêncio começa a se formar. O filme é então inacreditavelmente “esquecido”
pela imprensa.
Ao chegar ao Brasil,Padilha começa a falar mal da própria
obra e prefere divulgar o
documentário “Garapa” sobre famintos do Nordeste, ainda no
papel. É lançado o longa “Meu Nome Não é Johnny”, o filme atua exatamente como
uma espécie de lado B e tenta
romantizar a esperteza e gravar a surrada frase “os fins
justificam os meios”. Uma reação à mensagem passada por “Tropa”. Com Selton
Mello no elenco o filme estoura nos cinemas mas empaca nos camelôs. Alguns
meses se passam e “Meu Nome Não é Johnny” já não é lembrado por mais ninguém.
Globo e Record atualmente disputam a adaptação do filme de
Padilha para as telas da TV.
Se ainda não assistiu você não passa de um fanfarrão !
*****Ótimo
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