domingo, 13 de abril de 2014

Dia dos pais

...demorou pouco para que eu começasse a curtir aquele trabalho na empresa. A rotina de separar e entregar envelopes de hora em hora (não existia e-mail) fez com que rapidamente eu conhecesse quase todas as pessoas do local.
Um dia, ao entrar pela primeira vez na sala da Inspeção de Qualidade, um quadrilátero cravado no centro da linha de produção da fábrica, vi todos os olhos se moverem em minha direção. Cerca de oito ou nove técnicos pararam o que estavam fazendo e me fitaram demoradamente. Um deles se aproximou e perguntou:
- Oi garoto, como é seu nome ?
Ao me apresentar e dizer que estava na minha primeira semana um outro indagou:
- Você não é filho do Jesus ?
Ao ouvirem minha afirmativa um circulo se formou ao meu redor numa espécie de curiosidade zoológica. Queriam saber se eu era mesmo quem eles pensavam e rapidamente um retrato foi encontrado numa gaveta qualquer. A fotografia não deixava dúvida; era mesmo o meu pai reunido com toda aquela turma de avental cinza.
- Esse rapaz é a cara do pai...
Uma grande amizade foi celebrada naquele dia. Quase no fim do expediente um dos trabalhadores do setor me entregou um folheto de divulgação da empresa. Neste folheto, no qual aparecia uma foto do meu pai, circularam a imagem e inseriram anotações com caneta esferográfica onde se lia a frase: “Boi-Bufa Artista”.
Naquela noite perguntei para minha mãe o significado daquilo.
A princípio ela não disse nada, vasculhou um baú e localizou umas fotos antigas que mostravam meu pai muito jovem vestido com roupas de padre. Eram instantâneos das sessões de gravação de “Meu Destino em Tuas Mãos” de José Mojica Marins. Este filme de 1963, o terceiro da filmografia de Mojica e o último antes da criação do personagem Zé do Caixão era um filme de poucos recursos onde a vontade de filmar do cineasta paulistano esbarrava na total falta de recursos.
- Seu pai queria ser ator e participou deste filme ! Disse ela.
Sem o capital necessário mas com um grande trunfo (o menino-cantor paraguaio Franquito ídolo precoce de guaranias românticas que estava em São Paulo) , não demorou para Mojica convencer um grupo de padres a financiar o projeto (que nesta altura sequer existia). Os religiosos temerosos com a violência demonstrada no filme anterior , o western “Sina de Aventureiro”, decidiram que só liberariam o dinheiro caso a trama fosse de temática familiar e “falasse bem” da Igreja. Após alguns acertos o lacrimejante filme começou a ser rodado.
Minha mãe me relatou que a toda hora as sessões eram interrompidas pela ausência de uma roupa, um chapéu ou um detalhe para compor o cenário. Vaquinhas eram feitas entre elenco e equipe a fim de conseguir o necessário para as filmagens. O cantor Wanderley Cardoso, preterido da trilha sonora e um dos que buscavam algum papel, ajudou de alguma forma.
O filme em si traz marcado em brasas o que deve ter sido a infância de muita gente naquele período. Relatava de forma melodramática a vida de crianças pobres que suportavam as mazelas das crises familiares com pais violentos e alcoólatras. Na trama, os meninos,cansados da tristeza doméstica, fugiam de casa e partiam para a descoberta da vida num autêntico “on-the-road mirim” perambulando por estradas e cidades próximas. O mais velho deles, o cantor Franquito, intercalava cenas de aventura e traquinagens com músicas de partir o coração. A intenção do filme era nítida: surfar no sucesso do longa metragem espanhol “Marcelino Pão e Vinho” estrelado pelo menino Pablito Calvo, filme que arrebatou multidões aos cinemas desde sua primeira exibição em São Paulo.
Ainda na história, Mojica, o astro do filme, briga com seu filho, que foge de casa. O menino vai parar, após muitas confusões, numa igreja onde o meu pai era o padre e servia umas tigelas de comida para a criançada. Pensando que apanhará do pai violento (Mojica) o menino se esconde no topo da Igreja, próximo a torre dos sinos, mas não consegue sair dali sozinho. Logo o Mojica banca o McGyver e após alguns contorcionismos salva o filho. Filho e pai se reconciliam em meio a palmas e gritos de felicidade. Meu pai aparecia em apenas alguns segundos do filme, mas aquilo para mim já era uma coisa formidável.
Um ano depois , em 1964, meus pais se casaram e eu nasci no ano seguinte. Ele arrumou trabalho nas fábricas da região e essa “carreira artística” foi deixada de lado.
Hoje percebo que seu melhor filme, aquele que nunca foi rodado, era aquele onde dirigia o Sedan cor de vinho até a casa de minha avó, onde construia (depois de comprar uma serra elétrica) brinquedos de madeira, cavava o chão do quintal em busca de minhocas para o anzol das pescarias, roubava meus hominhos do forte apache para servirem de alvo aos tiros de espingarda de chumbo e sintonizava em volume alto o radinho Motorola para ouvir os jogos do Palmeiras nas tardes de domingo. Para mim esse é o verdadeiro Oscar que ele me deu.

Feliz aniversário pai !

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