Dia dos pais
...demorou pouco para que eu começasse a curtir aquele
trabalho na empresa. A rotina de separar e entregar envelopes de hora em hora
(não existia e-mail) fez com que rapidamente eu conhecesse quase todas as
pessoas do local.
Um dia, ao entrar pela primeira vez na sala da Inspeção de
Qualidade, um quadrilátero cravado no centro da linha de produção da fábrica,
vi todos os olhos se moverem em minha direção. Cerca de oito ou nove técnicos
pararam o que estavam fazendo e me fitaram demoradamente. Um deles se aproximou
e perguntou:
- Oi garoto, como é seu nome ?
Ao me apresentar e dizer que estava na minha primeira semana
um outro indagou:
- Você não é filho do Jesus ?
Ao ouvirem minha afirmativa um circulo se formou ao meu
redor numa espécie de curiosidade zoológica. Queriam saber se eu era mesmo quem
eles pensavam e rapidamente um retrato foi encontrado numa gaveta qualquer. A
fotografia não deixava dúvida; era mesmo o meu pai reunido com toda aquela
turma de avental cinza.
- Esse rapaz é a cara do pai...
Uma grande amizade foi celebrada naquele dia. Quase no fim
do expediente um dos trabalhadores do setor me entregou um folheto de
divulgação da empresa. Neste folheto, no qual aparecia uma foto do meu pai,
circularam a imagem e inseriram anotações com caneta esferográfica onde se lia
a frase: “Boi-Bufa Artista”.
Naquela noite perguntei para minha mãe o significado
daquilo.
A princípio ela não disse nada, vasculhou um baú e localizou
umas fotos antigas que mostravam meu pai muito jovem vestido com roupas de
padre. Eram instantâneos das sessões de gravação de “Meu Destino em Tuas Mãos”
de José Mojica Marins. Este filme de 1963, o terceiro da filmografia de Mojica
e o último antes da criação do personagem Zé do Caixão era um filme de poucos
recursos onde a vontade de filmar do cineasta paulistano esbarrava na total
falta de recursos.
- Seu pai queria ser ator e participou deste filme ! Disse
ela.
Sem o capital necessário mas com um grande trunfo (o
menino-cantor paraguaio Franquito ídolo precoce de guaranias românticas que
estava em São Paulo) , não demorou para Mojica convencer um grupo de padres a
financiar o projeto (que nesta altura sequer existia). Os religiosos temerosos
com a violência demonstrada no filme anterior , o western “Sina de
Aventureiro”, decidiram que só liberariam o dinheiro caso a trama fosse de
temática familiar e “falasse bem” da Igreja. Após alguns acertos o lacrimejante
filme começou a ser rodado.
Minha mãe me relatou que a toda hora as sessões eram
interrompidas pela ausência de uma roupa, um chapéu ou um detalhe para compor o
cenário. Vaquinhas eram feitas entre elenco e equipe a fim de conseguir o
necessário para as filmagens. O cantor Wanderley Cardoso, preterido da trilha
sonora e um dos que buscavam algum papel, ajudou de alguma forma.
O filme em si traz marcado em brasas o que deve ter sido a
infância de muita gente naquele período. Relatava de forma melodramática a vida
de crianças pobres que suportavam as mazelas das crises familiares com pais
violentos e alcoólatras. Na trama, os meninos,cansados da tristeza doméstica,
fugiam de casa e partiam para a descoberta da vida num autêntico “on-the-road
mirim” perambulando por estradas e cidades próximas. O mais velho deles, o
cantor Franquito, intercalava cenas de aventura e traquinagens com músicas de
partir o coração. A intenção do filme era nítida: surfar no sucesso do longa
metragem espanhol “Marcelino Pão e Vinho” estrelado pelo menino Pablito Calvo,
filme que arrebatou multidões aos cinemas desde sua primeira exibição em São
Paulo.
Ainda na história, Mojica, o astro do filme, briga com seu
filho, que foge de casa. O menino vai parar, após muitas confusões, numa igreja
onde o meu pai era o padre e servia umas tigelas de comida para a criançada.
Pensando que apanhará do pai violento (Mojica) o menino se esconde no topo da
Igreja, próximo a torre dos sinos, mas não consegue sair dali sozinho. Logo o
Mojica banca o McGyver e após alguns contorcionismos salva o filho. Filho e pai
se reconciliam em meio a palmas e gritos de felicidade. Meu pai aparecia em
apenas alguns segundos do filme, mas aquilo para mim já era uma coisa
formidável.
Um ano depois , em 1964, meus pais se casaram e eu nasci no
ano seguinte. Ele arrumou trabalho nas fábricas da região e essa “carreira
artística” foi deixada de lado.
Hoje percebo que seu melhor filme, aquele que nunca foi
rodado, era aquele onde dirigia o Sedan cor de vinho até a casa de minha avó,
onde construia (depois de comprar uma serra elétrica) brinquedos de madeira,
cavava o chão do quintal em busca de minhocas para o anzol das pescarias,
roubava meus hominhos do forte apache para servirem de alvo aos tiros de
espingarda de chumbo e sintonizava em volume alto o radinho Motorola para ouvir
os jogos do Palmeiras nas tardes de domingo. Para mim esse é o verdadeiro Oscar
que ele me deu.
Feliz aniversário pai !
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