domingo, 13 de abril de 2014

A arte contemporânea de Yayoi Kusama

     Obs: Há muito tempo (a última vez foi para um jornal catarinense da cidade de Brusque, chamado “Contracorrente” em 1993), que eu não ousava escrever sobre artes plásticas. Como a Internet tem virado uma espécie de vale tudo decidi arriscar e digitei as mal traçadas aí de baixo. Peço que todos que encontrem algum erro de informação ou conceito que me enviem suas correções. Respire fundo, tome um fôlego e mergulhe...

Uma das maiores artistas plásticas da arte contemporânea japonesa (provavelmente a maior) Yayoi Kosama, de 81 anos, é também a mais enigmática, moderna, surpreendente e polêmica personalidade que vem ganhando fãs e detratores nestes últimos 40 anos, período em que sua obra explodiu para o resto do mundo.

Críticos enfileiram rótulos a fim de tentar traduzir em palavras o intraduzível; nos trabalhos da senhora Kusama já foram detectadas , segundo a crítica, influências da pop art, do surrealismo, do minimalismo, do feminismo, além de passagens pela art brut e orientalismos high tech do Japão do século XXI.

Kusama, nasceu em Matsumoto, uma província de Nagano, e desde pequena teve uma infância turbulenta e problemática fruto da fragmentação da família e da criação castradora. Nas raríssimas entrevistas que  concedeu nas últimas décadas foram relatadas histórias de tentativas frustradas de suicídio e alucinações constantes.

A falsa percepção sensorial e a ausência de estímulos externos, que ela afirmava sofrer, acabou acarretando um sentimento distinto de ilusão espacial onde o que se passava no seu interior ganhava contornos de realidade final. Relegava assim o táctil e o mundo fisico para um plano secundário e promovia as alucinações como verdade final.

Com 17 anos, decidida a se tornar uma artista conhecida, começou a cobrir e embalar superfícies. Nada escapava de sua sanha embaladora: paredes, pisos, lonas e posteriormente utensílios domésticos viraram brinquedinhos para a artista. Chegou em vários momentos a utilizar aqueles pápeis de parede a fim de redimensionar o tecido e as cores dos corpos e objetos.

Sua fixação desde sempre foram bolinhas. Bolinhas são formas  rasas de tentar definir o que esta japonesa faz com alguns objetos, uma vez que o que parece ser uma coisa transforma-se já em outra após um segundo olhar. Nestes trabalhos ela conseguiu criar “redes infinitas” como ela mesmo apelidou estas obras que afirmava ser fruto do que ela tinha visto dentro dela.

Com 27 anos, e uma certa fama na terra do sol nascente,  vai para os EUA (1955) e chega num momento em que o país enfrentava uma onda gigante de conservadorismo (época que o rock e a cultura pop ensaiavam seus primeiros e tímidos passos...). Em pouquíssimo tempo ela estabelece a reputação de líder do movimento avant-garde norte-americano e vira queridinha da revista “New Yorker” e da imprensa especializada. Com a proximidade da Era de Aquário, mas ainda nas ondas de Mamom, ela organizaria (para surpresa de público e classe artística) “happenings” estranhos em locais visíveis (uma antecipação de projetos como aquele que colocou todo mundo pelado numa praça a fim de conseguirem uma foto ou vídeo impactante) como o Central Park e a Ponte do Brooklyn. A geração baby boomer começa então a perceber que outras possibilidades sensoriais podem existir e transforma visitas a museus e pinacotecas em passeio de família. O supra sumo da sintonia com os novos tempos são as vernissages, que a classe média norte-americana passa a prestigiar como nunca.

Nesta época ganha um fã ardoroso: o escultor americano Joseph Cornell, que vira amigo e divulgador de sua obra. Com a chegada da contracultura, do uso recreativo do LSD e outras drogas, somado ao sexo livre, muitos esqueceriam o pioneirismo de Kosama como madrinha de tudo isso (reconhecimento que só décadas mais tarde alguém relembraria quando após a morte de Andy Warhol ouve um revisionismo da história e da importância da cultura contemporânea). Se vê então na situação incômoda de semi-ostracismo.

Com o fim do sonho hippie e a profissionalização da arte , a ditadura exercida por publicitários e empresários vende para público e mídia o conceito de “carreita solo”.

Logo, o moderno e o bacana era ser dono de sua própria criação artística e grupos, escolas e correntes artísticas viraram do dia para noite sinônimo e tradução de estagnação criativa. Um novo egoísmo e pragmatismo varria o circuito artístico e cultural dos EUA. Era a “bad trip” prolongando seus efeitos daninhos e pintando de preto toda uma nova década (os anos 1970). Como o que acontecia nos EUA ecoava na Europa à reboque de bossas e modismos (até hoje tem gente que pensa que funciona ao contrario…), não demorou e o mundo inteiro se transformaria. Aquilo deprimiu a personalidade frágil da senhora Kusama que retorna então ao Japão em 1973, com a saúde e a estrutura mental em frangalhos. Para piorar sua situação é recebida com apupos e demonstração explícita de desaprovação pela comunidade artística que não reconhece nela os atributos que a fizera uma grande personalidade artística no Ocidente.

Acaba  internada naquele ano e passaria os próximos 20 anos vivendo numa pequena sala de um hospital psiquiátrico japonês (semelhante ao brasileiro Arthur Bispo do Rosário). Em 1977 lutou contra a morte e os médicos juravam que jamais voltaria a criar. Por lá, tranformaria quarto de recuperação em ateliê que funcionaria então como gestação para seu retorno triunfante em forma de  fênix pintora.

Mais ou menos refeita da doença ela decidide representar o Japão na Bienal de Veneza em 1993 e, em 1998-99 uma grande exposição retrospectiva do seu trabalho percorre EUA e Japão. Um novo culto de fãs e admiradores e novos artistas influenciados por ela começam a surgir em diversas partes do mundo.

A imprensa tenta sem sucesso entrevista-la, bate de frente com a negativa da artista e da direção do hospital que se recusam a pronunciar qualquer coisa. Com intermédio de um funcionário da instituição, Kusama decide gravar uma mini entrevista na qual afirma:

"Um dia eu estava olhando para o formato de uma flôr vermelha na toalha sobre uma mesa, e quando eu olhei para cima vi a mesma flôr cobrindo o teto. Quando olhei para a janela vi a flôr lá também, o mesmo acontecendo com as paredes, e, finalmente, toda a sala, o meu corpo e todo universo. Senti-me como se eu tivesse começado uma auto-destruição, eu  girava no infinito e no espaço, percebi que podia voar e que poderia reduzir coisas a nada.Podia por outro lado construir também e essa liberdade me fez ter medo de ser reduzida a nada caso errasse. Como eu notei que tudo aquilo estava realmente acontecendo e não era apenas na minha imaginação, eu fiquei com medo. Eu sabia que tinha de fugir para que eu não fosse privada de minha vida. Não poderia deixar que sumissem ou matassem as flores vermelhas. Subi desesperadamente as escadas. Os degraus abaixo de mim começaram a desmoronar e eu caí da escada machucando meu tornozelo. "

Só os mais insensíveis e materialistas natos  teriam a coragem de discordar e apontar a esquizofrenia deste discurso.

Kusama, com seus 81 anos, foi fotografada recentemente com um vestido cor de abóbora com pequenos quadrados amarelos.Usava na ocasião uma peruca igual aos  bonequinhos de playmobil.

Desafio mortal para historiadores, colecionadores e arquivistas é inventariar sua produção artística. Até hoje não se sabe ao certo quantos e quais são seus trabalhos. Muito menos data, local e nome de pinturas,esculturas, etc...

Sua produção artística foi tão excessiva que alguns apontam como primeiro trabalho uma simples fotografia que ela tirou dela mesma aos dez anos de idade em 1938. Na foto ela esta rodeada por um manto cheio de bolinhas o que dá caráter de marca registrada do que viria a produzir na vida adulta.

Em 1952, com 23 anos, decide dar “um rosto” aos poemas de André Breton e absorve conceitos do surrealismo que passa a partir de então a aparecer em sua obra.

Aos 20 anos de idade começa a pintar em velocidade fenomenal de até 50 ou 60 quadros por dia. Estes quadros eram uma parte do tratamento psiquiátrico que ela se submeteria a fim de controlar e lutar contra sua doença mental.


As esporádicas aparições da senhora Kusama são hoje saudadas como um grande acontecimento artístico do mundo da arte. Este reconhecimento, embora tardio, de sua genialidade e importância imprime em nós uma reflexão a cerca de coisas, textos e trecos deste autêntico museu da vida.



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