A arte contemporânea de Yayoi Kusama
Obs: Há muito tempo (a última vez foi para um jornal
catarinense da cidade de Brusque, chamado “Contracorrente” em 1993), que eu não
ousava escrever sobre artes plásticas. Como a Internet tem virado uma espécie
de vale tudo decidi arriscar e digitei as mal traçadas aí de baixo. Peço que
todos que encontrem algum erro de informação ou conceito que me enviem suas
correções. Respire fundo, tome um fôlego e mergulhe...
Uma das maiores artistas
plásticas da arte contemporânea japonesa (provavelmente a maior) Yayoi Kosama,
de 81 anos, é também a mais enigmática, moderna, surpreendente e polêmica
personalidade que vem ganhando fãs e detratores nestes últimos 40 anos, período
em que sua obra explodiu para o resto do mundo.
Críticos enfileiram rótulos a
fim de tentar traduzir em palavras o intraduzível; nos trabalhos da senhora
Kusama já foram detectadas , segundo a crítica, influências da pop art, do
surrealismo, do minimalismo, do feminismo, além de passagens pela art brut e
orientalismos high tech do Japão do século XXI.
Kusama, nasceu em Matsumoto,
uma província de Nagano, e desde pequena teve uma infância turbulenta e
problemática fruto da fragmentação da família e da criação castradora. Nas
raríssimas entrevistas que concedeu nas
últimas décadas foram relatadas histórias de tentativas frustradas de suicídio
e alucinações constantes.
A falsa percepção sensorial e
a ausência de estímulos externos, que ela afirmava sofrer, acabou acarretando
um sentimento distinto de ilusão espacial onde o que se passava no seu interior
ganhava contornos de realidade final. Relegava assim o táctil e o mundo fisico
para um plano secundário e promovia as alucinações como verdade final.
Com 17 anos, decidida a se
tornar uma artista conhecida, começou a cobrir e embalar superfícies. Nada
escapava de sua sanha embaladora: paredes, pisos, lonas e posteriormente
utensílios domésticos viraram brinquedinhos para a artista. Chegou em vários
momentos a utilizar aqueles pápeis de parede a fim de redimensionar o tecido e
as cores dos corpos e objetos.
Sua fixação desde sempre
foram bolinhas. Bolinhas são formas
rasas de tentar definir o que esta japonesa faz com alguns objetos, uma
vez que o que parece ser uma coisa transforma-se já em outra após um segundo
olhar. Nestes trabalhos ela conseguiu criar “redes infinitas” como ela mesmo
apelidou estas obras que afirmava ser fruto do que ela tinha visto dentro dela.
Com 27 anos, e uma certa fama
na terra do sol nascente, vai para os
EUA (1955) e chega num momento em que o país enfrentava uma onda gigante de
conservadorismo (época que o rock e a cultura pop ensaiavam seus primeiros e
tímidos passos...). Em pouquíssimo tempo ela estabelece a reputação de líder do
movimento avant-garde norte-americano e vira queridinha da revista “New Yorker”
e da imprensa especializada. Com a proximidade da Era de Aquário, mas ainda nas
ondas de Mamom, ela organizaria (para surpresa de público e classe artística)
“happenings” estranhos em locais visíveis (uma antecipação de projetos como
aquele que colocou todo mundo pelado numa praça a fim de conseguirem uma foto
ou vídeo impactante) como o Central Park e a Ponte do Brooklyn. A geração baby
boomer começa então a perceber que outras possibilidades sensoriais podem
existir e transforma visitas a museus e pinacotecas em passeio de família. O
supra sumo da sintonia com os novos tempos são as vernissages, que a classe
média norte-americana passa a prestigiar como nunca.
Nesta época ganha um fã
ardoroso: o escultor americano Joseph Cornell, que vira amigo e divulgador de
sua obra. Com a chegada da contracultura, do uso recreativo do LSD e outras
drogas, somado ao sexo livre, muitos esqueceriam o pioneirismo de Kosama como
madrinha de tudo isso (reconhecimento que só décadas mais tarde alguém
relembraria quando após a morte de Andy Warhol ouve um revisionismo da história
e da importância da cultura contemporânea). Se vê então na situação incômoda de
semi-ostracismo.
Com o fim do sonho hippie e a
profissionalização da arte , a ditadura exercida por publicitários e
empresários vende para público e mídia o conceito de “carreita solo”.
Logo, o moderno e o bacana
era ser dono de sua própria criação artística e grupos, escolas e correntes
artísticas viraram do dia para noite sinônimo e tradução de estagnação
criativa. Um novo egoísmo e pragmatismo varria o circuito artístico e cultural
dos EUA. Era a “bad trip” prolongando seus efeitos daninhos e pintando de preto
toda uma nova década (os anos 1970). Como o que acontecia nos EUA ecoava na
Europa à reboque de bossas e modismos (até hoje tem gente que pensa que
funciona ao contrario…), não demorou e o mundo inteiro se transformaria. Aquilo
deprimiu a personalidade frágil da senhora Kusama que retorna então ao Japão em
1973, com a saúde e a estrutura mental em frangalhos. Para piorar sua situação
é recebida com apupos e demonstração explícita de desaprovação pela comunidade
artística que não reconhece nela os atributos que a fizera uma grande
personalidade artística no Ocidente.
Acaba internada naquele ano e passaria os próximos
20 anos vivendo numa pequena sala de um hospital psiquiátrico japonês
(semelhante ao brasileiro Arthur Bispo do Rosário). Em 1977 lutou contra a
morte e os médicos juravam que jamais voltaria a criar. Por lá, tranformaria
quarto de recuperação em ateliê que funcionaria então como gestação para seu
retorno triunfante em forma de fênix
pintora.
Mais ou menos refeita da
doença ela decidide representar o Japão na Bienal de Veneza em 1993 e, em
1998-99 uma grande exposição retrospectiva do seu trabalho percorre EUA e
Japão. Um novo culto de fãs e admiradores e novos artistas influenciados por
ela começam a surgir em diversas partes do mundo.
A imprensa tenta sem sucesso
entrevista-la, bate de frente com a negativa da artista e da direção do
hospital que se recusam a pronunciar qualquer coisa. Com intermédio de um
funcionário da instituição, Kusama decide gravar uma mini entrevista na qual
afirma:
"Um dia eu estava
olhando para o formato de uma flôr vermelha na toalha sobre uma mesa, e quando
eu olhei para cima vi a mesma flôr cobrindo o teto. Quando olhei para a janela
vi a flôr lá também, o mesmo acontecendo com as paredes, e, finalmente, toda a
sala, o meu corpo e todo universo. Senti-me como se eu tivesse começado uma
auto-destruição, eu girava no infinito e
no espaço, percebi que podia voar e que poderia reduzir coisas a nada.Podia por
outro lado construir também e essa liberdade me fez ter medo de ser reduzida a
nada caso errasse. Como eu notei que tudo aquilo estava realmente acontecendo e
não era apenas na minha imaginação, eu fiquei com medo. Eu sabia que tinha de
fugir para que eu não fosse privada de minha vida. Não poderia deixar que
sumissem ou matassem as flores vermelhas. Subi desesperadamente as escadas. Os
degraus abaixo de mim começaram a desmoronar e eu caí da escada machucando meu
tornozelo. "
Só os mais insensíveis e
materialistas natos teriam a coragem de
discordar e apontar a esquizofrenia deste discurso.
Kusama, com seus 81 anos, foi
fotografada recentemente com um vestido cor de abóbora com pequenos quadrados
amarelos.Usava na ocasião uma peruca igual aos
bonequinhos de playmobil.
Desafio mortal para
historiadores, colecionadores e arquivistas é inventariar sua produção
artística. Até hoje não se sabe ao certo quantos e quais são seus trabalhos.
Muito menos data, local e nome de pinturas,esculturas, etc...
Sua produção artística foi
tão excessiva que alguns apontam como primeiro trabalho uma simples fotografia
que ela tirou dela mesma aos dez anos de idade em 1938. Na foto ela esta
rodeada por um manto cheio de bolinhas o que dá caráter de marca registrada do
que viria a produzir na vida adulta.
Em 1952, com 23 anos, decide
dar “um rosto” aos poemas de André Breton e absorve conceitos do surrealismo
que passa a partir de então a aparecer em sua obra.
Aos 20 anos de idade começa a
pintar em velocidade fenomenal de até 50 ou 60 quadros por dia. Estes quadros
eram uma parte do tratamento psiquiátrico que ela se submeteria a fim de
controlar e lutar contra sua doença mental.
As esporádicas aparições da
senhora Kusama são hoje saudadas como um grande acontecimento artístico do
mundo da arte. Este reconhecimento, embora tardio, de sua genialidade e
importância imprime em nós uma reflexão a cerca de coisas, textos e trecos
deste autêntico museu da vida.
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