sexta-feira, 10 de julho de 2015

Ela


  Encontrou-a na sala dos professores. Uma agradável surpresa. Ela nada disse, olhava de forma dissimulada quase uma confissão de que o havia reconhecido.
     Incentivado pela sala praticamente vazia, e temendo não ter outra oportunidade, ele se aproximou. Foi recompensado ao ver de perto aqueles olhos verdes, lindos, que foram a causa de sua perdição na adolescência.
     Imediatamente foi assaltado por recordações da época: o primeiro beijo no jardim, o sorvete, o passeio de mãos dadas, a árvore frondosa que serviu de abrigo contra a chuva pesada e o amasso assustado e desajeitado no carro dela. Voltou a ter 17 anos outra vez.
     Ela rabiscava um caderno e parecia concentrada. Ele, impaciente, a desenhava com os olhos parando demoradamente em detalhes que só o amor poderia notar: a pintinha no pulso direito, um leve corte no polegar e os cabelos loiros que brilhavam. Cabelos que exalavam cheiro de maçã, pode sentir devido a ousada proximidade.
     Arriscou umas perguntas, ganhou respostas em voz baixa num tom que ele traduziu como tristeza. Insistiu mais um pouco e desta vez foi premiado com um olhar carinhoso.
     Naquele instante, vindo sabe lá de onde, surge o professor Evandro, amigo de ambos, que rapidamente percebe o que está acontecendo. Evandro dá uma risadinha, meia volta e vai buscar um estojo de giz, um  pen drive ou algo assim.
     Ele nem percebeu a chegada do antigo amigo e a quase interrupção. Estava 100% concentrado em Analu.
     Ficaram parados e uma sensação estranha, desconfortável, foi crescendo e preenchendo a sala quase deserta. Aproximou-se mais um pouco quando viu sua propria imagem nos olhos dela.
     Decidido, ultrapassou a barreira invisível construida pelo tempo e segurou a mão dela.
     Percebendo os dedos nus, sem qualquer adorno, perguntou em tom mongolóide-infantil:
- Cadê a aliança que estava neste dedo ?  
     Sem esperar a resposta saiu confiante  e aguardou na salinha do café. Apostava que ela viria ao seu encalço.
     Segundos que mais pareceram semanas se passaram quando a porta abriu. Era agora, pensou. A história de toda uma vida seria enfim esclarecida e retomada a partir daquele instante. Ele pediria desculpas pelas ofensas, explicaria o porque de não ter retornado as ligações, confessaria as noites de insônia e a busca em outras mulheres de um pouquinho dela, um sorriso, os olhos verdes, a discrição tímida, qualquer traço que a trouxesse de volta, mesmo que num corpo estranho. Analu, Analu, que bom esse encontro...Analu. Seu único, e agora ele tinha certeza, grande amor.
    A porta abriu, ela caminhava depressa olhando para o chão. Ignorou a presença dele e em instantes já não estava mais na escola.
Evandro que acompanhava a cena à distância  se aproximou e sem parcimônia disparou:
- Eu sei o que aconteceu ! Você estava se declarando pra ela né ?
- Sabia que o diretor pega ela direto no estacionamento ? Ela está grávida e eles vão se casar !
    Antes de esboçar qualquer resposta o despertador tocou.
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    Pensou em levantar. Recuou. Pensativo, ficou sentado fumando um cigarro. Tentava entender tudo aquilo.
     Que coisa estranha. Será que isso era o que chamavam de desdobramento astral ? Algo mediúnico, meio bruxaria meio revelação...
   Mais ou menos refeito respondeu enfim ao interlocutor que havia ficado no mundo onírico:
- Ah Morfeu...Seu sádico piadista ! O que faço agora com todas estas recordações ?
     Naquela manhã o café foi mais demorado, a roupa escolhida de qualquer jeito e os passarinhos não tiveram seu alpiste.
     Já nas ruas, caminhando como um zumbi, parava as pessoas para perguntar:

- Meu senhor, minha senhora, vocês sabem como é que se retoma um sonho ?

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