Encontrou-a na sala
dos professores. Uma agradável surpresa. Ela nada disse, olhava de forma
dissimulada quase uma confissão de que o havia reconhecido.
Incentivado pela
sala praticamente vazia, e temendo não ter outra oportunidade, ele se aproximou.
Foi recompensado ao ver de perto aqueles olhos verdes, lindos, que foram a
causa de sua perdição na adolescência.
Imediatamente foi
assaltado por recordações da época: o primeiro beijo no jardim, o sorvete, o
passeio de mãos dadas, a árvore frondosa que serviu de abrigo contra a chuva
pesada e o amasso assustado e desajeitado no carro dela. Voltou a ter 17 anos
outra vez.
Ela rabiscava um
caderno e parecia concentrada. Ele, impaciente, a desenhava com os olhos
parando demoradamente em detalhes que só o amor poderia notar: a pintinha no
pulso direito, um leve corte no polegar e os cabelos loiros que brilhavam.
Cabelos que exalavam cheiro de maçã, pode sentir devido a ousada proximidade.
Arriscou umas
perguntas, ganhou respostas em voz baixa num tom que ele traduziu como
tristeza. Insistiu mais um pouco e desta vez foi premiado com um olhar
carinhoso.
Naquele instante,
vindo sabe lá de onde, surge o professor Evandro, amigo de ambos, que
rapidamente percebe o que está acontecendo. Evandro dá uma risadinha, meia
volta e vai buscar um estojo de giz, um
pen drive ou algo assim.
Ele nem percebeu
a chegada do antigo amigo e a quase interrupção. Estava 100% concentrado em
Analu.
Ficaram parados e
uma sensação estranha, desconfortável, foi crescendo e preenchendo a sala quase
deserta. Aproximou-se mais um pouco quando viu sua propria imagem nos olhos
dela.
Decidido,
ultrapassou a barreira invisível construida pelo tempo e segurou a mão dela.
Percebendo os
dedos nus, sem qualquer adorno, perguntou em tom mongolóide-infantil:
- Cadê a aliança que estava neste dedo ?
Sem esperar a
resposta saiu confiante e aguardou na
salinha do café. Apostava que ela viria ao seu encalço.
Segundos que mais
pareceram semanas se passaram quando a porta abriu. Era agora, pensou. A
história de toda uma vida seria enfim esclarecida e retomada a partir daquele
instante. Ele pediria desculpas pelas ofensas, explicaria o porque de não ter
retornado as ligações, confessaria as noites de insônia e a busca em outras
mulheres de um pouquinho dela, um sorriso, os olhos verdes, a discrição tímida,
qualquer traço que a trouxesse de volta, mesmo que num corpo estranho. Analu,
Analu, que bom esse encontro...Analu. Seu único, e agora ele tinha certeza,
grande amor.
A porta abriu, ela
caminhava depressa olhando para o chão. Ignorou a presença dele e em instantes
já não estava mais na escola.
Evandro que acompanhava a cena à distância se aproximou e sem parcimônia disparou:
- Eu sei o que aconteceu ! Você estava se declarando pra ela
né ?
- Sabia que o diretor pega ela direto no estacionamento ?
Ela está grávida e eles vão se casar !
Antes de esboçar
qualquer resposta o despertador tocou.
#
Pensou em
levantar. Recuou. Pensativo, ficou sentado fumando um cigarro. Tentava entender
tudo aquilo.
Que coisa
estranha. Será que isso era o que chamavam de desdobramento astral ? Algo
mediúnico, meio bruxaria meio revelação...
Mais ou menos
refeito respondeu enfim ao interlocutor que havia ficado no mundo onírico:
- Ah Morfeu...Seu sádico piadista ! O que faço agora com
todas estas recordações ?
Naquela manhã o
café foi mais demorado, a roupa escolhida de qualquer jeito e os passarinhos
não tiveram seu alpiste.
Já nas ruas,
caminhando como um zumbi, parava as pessoas para perguntar:
- Meu senhor, minha senhora, vocês sabem como é que se retoma um sonho ?
- Meu senhor, minha senhora, vocês sabem como é que se retoma um sonho ?
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